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O CHAMADO DO CAMINHO – PARTE 3 de 6

Dia 14/02 – Ouro Fino até Borda da Mata – 30 Km – Passando por Inconfidentes – 7 horas de caminhada

 

Acordei as 06:00 bem dolorido devido ao dia difícil de ontem, tomei um relaxante muscular e fui pro café. Comecei na escuridão do dia e dos meus pensamentos, estava muito balançado com o dia interior e então comecei uma introspectiva, conversando comigo mesmo, como estava minha vida, minhas amizades, minha família, o porquê de estar ali, lembrei dos pedidos que algumas pessoas me entregaram e então olhei para o horizonte e vi o sol nascendo com toda sua imponência, aquilo para mim foi uma resposta de Deus dizendo que estava no caminho certo.

 

Passei por Inconfidentes ás 09:00, tomei um café e continuei, teria mais 21 Km até  Borda da Mata, destino final naquele dia. No percurso existem algumas casas e de vez em quando encontrava pessoas que moravam na região que sempre me cumprimentavam: Bom dia Peregrino! , Bom caminho, Peregrino!, Boa tarde, Peregrino! Percebi ali que não era mais o Pedro, mas sim o Peregrino, e como eu ficava feliz a cada saudação, aquilo me enchia de vontade de chegar a Aparecida e agradecer por todos esses anjos.

 

Cheguei em Borda da Mata e logo encontrei Kimi acompanhada do Carlão e o Manoel, os dois são de Pouso Alegre se não me engano, o Carlão era a terceira vez fazendo o caminho e o Manoel a primeira. Não entendia porque as pessoas faziam tantas vezes o caminho, não entendia por enquanto. Bom, fomos nós quatro atrás de Pousada, como era época de carnaval e as cidades do interior de Minas são famosas pelo carnaval de rua, estávamos sem opção, todas as pousadas estavam lotadas. Kimi, Carlão e Manuel foram para Inconfidentes de carro pois tinham achado uma pousada lá. Eu preferi ficar e colocar nas mãos de Deus.

 

Liguei para a Pousada Village e o que aconteceu? Eles tinham uma vaga, pois uma pessoa tinha desistido de última hora, coincidência? Pra mim era Deus. A noite em um apartamento com banheiro sem café custava R$ 40, como não tinha opção agradeci e fui. Deixei minhas coisas no quarto e fui ao mercado para comprar o café da manhã e o lanche do outro dia, minhas bolhas estavam melhorando. Eu as estourava com meu cortador de unha, passava merthiolate e depois fazia um curativo com gases e esparadrapo. Estava dando certo.

 

Dia 15/02 – Borda da Mata até Estiva – 39 Km – Passando por Tocos do Moji – 10 horas de caminhada

 

Acordei ás 04:30 da manhã muito disposto para começar o trajeto logo cedo e pegar um nascer do sol. É tão bom quando o que planejamos não da certo, iniciei a caminhada as 05:00 ainda estava rolando carnaval de rua e ao entrar na estrada de terra um homem de aproximadamente 30 anos me gritou e falou que estava indo naquela direção também, a princípio fingi que não ouvi e segui em frente, porém ele insistiu e pela minha promessa segui o fluxo e esperei homem, conversamos e ele me contou que estava hospedado no sítio de um primo próximo dali, começou a falar da sua vida e eu estava envergonhado com meu julgamento errado do rapaz, que me elogiou muito pela minha decisão de fazer a peregrinação sozinho e disse que um dia queria fazer aquilo também.

 

Depois de 1 hora na trilha me despedi do rapaz e fiquei a espera do tão sonhado nascer do sol, não deu 15 minutos começou uma chuva forte e uma tempestade de raios. Quanto à chuva dei risada, mas com relação aos raios me preocupei bastante por estar em um lugar descampado e com dois bastões de alumínio, então deixei os bastões a uma distância considerável me abaixei e debaixo de chuva esperei a tempestade de raios passar. Após 30 minutos a tempestade diminuiu bastante e eu aproveitei para seguir e agradecer a Deus por me proteger de todos os raios.

 

E não é que peguei um nascer do sol ainda, não foi o que eu tinha sonhado mas me deu muita energia.

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Cheguei em Tocos do Moji ás 09:30, inteiro e cheio de energia, ainda mais depois de tomar aquele café obrigatório e comer um pão de queijo. Em Tocos encontrei muita gente que estava fazendo o caminho, fora que a cidadezinha estava bem movimentada por ser Domingo todo mundo andava pelas praças e ruas, foi bem legal de ver. Arrumei minha mochila e parti pra próxima etapa até Estiva, mais 21 Km de muito sobe e desce, ali me falaram que eu ia sentir o que era a Serra da Mantiqueira.

 

Realmente o percurso tinha muita, mas muita subida e descida, não que os outros trechos não tivessem, mas esse era exagerado, e então comecei a sentir meu joelho esquerdo ao descer as gigantescas ribanceiras. Foi neste trecho que comecei a rezar, olhava para frente e rezava sem parar, o sentimento era inexplicável, eu entrava em transe, às vezes me distraia com algo, mas por boa parte do caminho fiquei muito mas muito focado. E o mais curioso, neste tempo que ficava focado eu não sentia dificuldade nas subidas e descidas, naqueles momentos eu estava vivendo intensamente o presente, concentrado no meu corpo, sentia Deus dentro de mim, ali eu estava me autoconhecendo, entendendo que nada sou, nada posso sem minha espiritualidade (se posso dizer assim), mas que com Deus eu podia muito mais do que eu pensava ser meu limite. Foi uma energia intensa, uma felicidade inexplicável e um sentimento de gratidão eterna e de pequenez. Que FELICIDADE que CAMINHO !!!!

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A dor do joelho esquerdo passou para o direito, o que não passou foi a fé que eu iria chegar em Estiva, e assim foi, depois de 10 horas de caminhada, ultrapassando meus limites físicos e mentais cheguei carregado por essa força divina. Quanta ALEGRIA, FELICIDADE, FÉ e GRATIDÃO.

 

 

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